Civilização e Barbárie: bocas do tempo de Eduardo Galeano

De volta a São Paulo depois de uma viagem cheia de conversas, pessoas, lugares, encontros, coloco-me novamente a refletir sobre o poder e o papel da narrativa na humanização de um mundo para além da coisificação, do ter e da propriedade. Durante a viagem encontrei coisas não esperadas, mas que vieram muito bem ao encontro do que tenho planejado.

Estou lendo 3 livros no momento. “Caim” do Saramago, “Novos possíveis no encontro da Psicologia com a Educação” de diversos autores (é uma coletânea de artigos publicados pela Casa do Psicólogo. Livro emprestado por uma figura muito bacana e especial.) e “Bocas do Tempo” do Eduardo Galeano, livro que comprei numa banca de jornal.

Vale destaque para esse último. Sempre gostei do Galeano, mas nunca tinha tido oportunidade de ler nada além do “livro dos abraços” e do “memórias do fogo”.

Muito interessante esse conto (o livro tem uma porção de contos, um por página):

“Enquanto os deuses dormem ou fingem dormir as pessoas caminham. É dia de feira neste povoado perdido nos arredores de Totonicapan e o vaivém é grande.

De outras aldeias chegam mulheres carregando pacotes pelas veredas verdes. Elas se encontram na feira, hoje, aqui, acolá, neste povoado e em outro, como dentes que vão saltando à boca, e conversando vão sabendo das novidades, lentamente, enquanto vendem, pouco a pouco, uma coisinha ou outra.
Uma velha senhora estende seu lenço no chão e alí deita sua mercadoria: defumador feito de cacto, tinturas de anil e colchonilha, algumas pimentas bem picantes, ervas coloridas, um jarro de mel silvestre, uma boneca de pano e um boneco pintado, faixas, cordões, fitas, colares de sementes, pentes de osso….

Um turista recém chegado à Guatemala quer comprar tudo.

Como ela não entende, ele explica com as mãos: tudo. Ela nega com a cabeça. Ele insiste: você me diz quanto quer, eu digo quanto pago. E repete: compro tudo. Fala cada vez mais alto. Grita. Ela, estátua sentada, se cala.

O turista, cansado, vai embora. Pensa: este país não vai chegar a lugar nenhum. Ela vê como ele se afasta. Pensa: minhas coisas não querem ir embora com você.”

Forte, né? Sincero e direto como a vida tem de ser.

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Felipe Cabral

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